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Acessibilidade já!

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Acessibilidade já!

12 agosto, 2016
Por : Instituto IDD
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"Posso aceitar que o deficiente seja vítima do destino, só não posso aceitar que seja vítima de nossa indiferença!"


Com este pensamento do grande estadista J. F. Kennedy, podemos começar uma reflexão sobre nosso cotidiano. Temos colocado os valores morais, éticos e humanos acima dos valores materiais, estéticos e pessoais?

Em 2003, fui procurado por Antônio, já falecido, e Neusa, pais da Letícia, usuária de cadeira de rodas desde 2000, para que os ajudasse a resolver o problema de acessibilidade que eles encontravam diariamente ao chegar em casa com sua filha. Morando em um edifício com escadas no acesso principal, viam-se obrigados a empurrá-la pela rampa de veículos, na lateral do prédio que, devido à acentuada inclinação e à irregularidade do piso, oferecia alto risco, principalmente na saída pois, para que ela não caísse da cadeira, viam-se obrigados à descer de costas! Como isso não bastasse, tinham ainda que desviar de veículos, muitas vezes em movimento e dependendo da hora, no escuro, para então, na porta dos fundos, ainda vencerem um degrau.


Apesar de pagarem a mesma taxa de condomínio de seus vizinhos, jamais foram atendidos em seus inúmeros pedidos de providências. Tanto a síndica quanto os demais condôminos sempre alegavam falta de recursos para instalação de qualquer dispositivo mecânico e o pior, jamais admitiriam danificar o paisagismo do jardim em frente ao prédio, na época um gramado em aclive com alguns pequenos cedros, cercado de arbustos e algumas flores de estação.

Quando visitei o local, de pronto imaginei um caminho ao longo deste jardim, começando à esquerda do alinhamento predial, percorrendo os cinco metros do recuo e curvando-se à direita, acompanhando suavemente a inclinação do jardim, até chegar no patamar em frente ao acesso principal. O percurso de aproximadamente dezessete metros seria mais do que o suficiente para vencer o desnível responsável pelos degraus. As normas recomendam uma inclinação máxima de oito porcento para rampas externas e ali teríamos algo em torno de seis porcento.

Quando conversei sobre a ideia com a responsável pela portaria ela ficou feliz, comentando que a Letícia poderia finalmente tomar o banho de sol em frente ao prédio, na calçada, sem mais correr riscos. Foi então que tive a inspiração de criar um pequeno remanso no meio do caminho, onde já havia a placa de identificação do prédio, com espaço suficiente para a colocação de dois bancos de jardim, formando uma pequena pracinha, proporcionando um local agradável e seguro para aquela atividade e para encontros dos demais moradores.


Com o projeto em planta, perspectivas humanizadas e coloridas e o orçamento de custo da execução em mãos, agendei uma reunião com a síndica e o conselho. A surpresa foi geral ao verificarem que ao contrário do que imaginavam, o jardim ficaria valorizado pelo caminho revestido em paver na cor terracota, semelhante ao revestimento em granito da escada e do hall, e ladeado por flores, agregando beleza ao gramado existente.

O Paver - pequena lajota em concreto de dez por vinte centímetros - apresenta inúmeras vantagens, tais como a característica de ser antiderrapante, a facilidade de remoção e recolocação por estar simplesmente assentado sobre uma base de areia ou pó de pedra, e a facilidade para eventuais manutenções. Além de, como no nosso caso, poder ser encomendado junto ao fabricante na cor de sua preferência e a um custo bastante reduzido, comparado a outros revestimentos.

A segunda agradável surpresa foi constatar que a despesa de planejamento e execução equivaleria ao custo de apenas um lanche por morador e o serviço poderia ser realizado em uma semana!

O bom senso e a boa vontade devem nortear-nos para que as boas ideias, muitas vezes de uma simplicidade assombrosa, venham ajudar-nos a retirar os obstáculos que impedem que as cidades sejam mais justas e humanas, oferecendo igualdade de condições não só às pessoas com deficiência, mas também às com mobilidade reduzida, tais como os idosos, os obesos, as gestantes, as pessoas com carrinhos de bebê ou de compras e até mesmo as crianças, para as quais escadas oferecem altos riscos


Sentimo-nos recompensados ao acompanhar a Letícia acessando de forma independente seu edifício, com um largo sorriso no rosto, tendo resgatado assim sua autonomia e sua auto-estima, provocando declarações como a da síndica que, após a conclusão da obra - tema de reportagens no jornal Gazeta do Povo e no programa "Aqui entre nós" da TV Educativa - declarou com orgulho: "Hoje somos até exemplo, já que somos o único edifício da rua com rampa de acesso!".


Para quem desejar visitar, o Edifício Virgínia Augusta está situado à Rua Atílio Bório, nº120, no bairro Cristo Rei, próximo à Estação Rodoferroviária de Curitiba.

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Texto do Arq. Ricardo Mesquita - Especialista em Acessibilidade e Professor nos Cursos do Instituto IDD. Colaborador do Projeto IDD Conteúdo, com produção de matérias para o blog do IDD News.

Imagem: mao

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