Entre em contato conosco

Concurrent Engineering, outro modismo?

  • Concurrent Engineering, outro modismo?

Concurrent Engineering, outro modismo?

08 setembro, 2016
Por : Instituto IDD
Comentários : 1

Conheça melhor a prática da Engenharia Simultânea com o Professor do IDD, o Engenheiro Marcus Sterzi.


Ao longo dos próximos meses estarei discorrendo sobre assuntos relacionados ao Gerenciamento de Obras e Projetos, Planejamento de Obras e Canteiros, Building Information Modeling (BIM) e Lean Construction através do blog do IDD News.

Estreio minha primeira postagem com um tema pouco utilizado na gestão de projetos e empreendimentos de construção civil. Trata-se da Engenharia Simultânea, ou para os amantes das palavras em inglês: "Concurrent Engineering".

O desenvolvimento de um projeto de obra de edificação é fruto da interação entre profissionais de diversas áreas que desenvolvem, simultaneamente, suas opções e decisões com relação ao mesmo. Assim sendo, é necessário considerar que a realização do projeto é dependente da eficiência da comunicação entre os membros da equipe, uma vez que grande parte do trabalho de cada projetista deve ser desenvolvida sob as restrições impostas pelas necessidades dos demais. O cuidado com o fluxo de informações apresenta-se, portanto, como um mecanismo eficiente para garantir a integração, controle e organização das atividades, colaborando para a transparência do processo

O contexto do processo de projeto na construção civil pode ser caracterizado pelos seguintes aspectos:

a) As necessidades dos clientes não são devidamente analisadas;

b) Alto grau de incerteza nas fases iniciais do projeto;

c) Necessidade da compressão dos prazos de desenvolvimento;

d) Aumento da complexidade de subsistemas;

e) Alto grau de interferência das pessoas envolvidas;

f) O planejamento e controle do processo de projeto são realizados de forma separada por cada profissional (arquitetos e projetistas);

g) Falta de consideração do fluxo de entre projetistas dificulta a coordenação do processo de projeto;

h) Equipes trabalham de forma isolada e não de forma multidisciplinar;

i) Durações das atividades de projeto não são conhecidas;

j) As tarefas realizadas são pouco repetitivas onde cada projetista exige tratamento diferenciado;

k) Dificuldade de identificação do que realmente está concluído no projeto devido à falta de definição das tarefas;

l) Uma solução de projeto é analisada inúmeras vezes até ser considerada adequada (point based design).

Desta forma é necessário uma abordagem diferente para o gerenciamento do projeto para evoluirmos neste tema. Assim desponta a Engenharia Simultânea, prática surgida em meados dos anos 80, que implicitamente utiliza muitos elementos de aplicação Lean com ênfase no fluxo e valor (temas que abordaremos em futuros posts). Diversos sinônimos são utilizados para referenciar este tema: concurrent engineering, simultaneous engineering, integrated product and process design, e parallel engineering

A prática de gerenciamento de projeto pode ser agrupada em três períodos: Projeto como Ofício (artesanato), Engenharia Sequencial e Engenharia Simultânea (KOSKELA, 2000). O conceito de Engenharia Simultânea emergiu como uma abordagem sistemática para integrar, simultaneamente, projeto e seus processos relacionados, incluindo construção e manutenção.

Em 1986, um artigo do Institute for Defense Analyses (IDA) cunhou o termo Engenharia Simultânea, definindo-o como uma abordagem pretendida para motivar os profissionais envolvidos a, desde o princípio, considerar todos os elementos do ciclo de vida do produto, do conceito à venda, incluindo qualidade, custo, estabelecimento de prazos e requisitos dos usuários.  Os métodos e ferramentas empregados através da Engenharia Simultânea foram inicialmente baseados no conceito de fluxo, mas também têm possibilitado a aplicação do conceito de geração de valor na construção (KOSKELA, 2000). Vários pesquisadores vêm desenvolvendo estudos que visam a utilizar métodos e ferramentas da Engenharia Simultânea para utilização em empreendimentos da construção.

E segundo aplicações e estudos sobre esta temática as características da Engenharia Simultânea mais relevantes para a construção são: o foco na satisfação do cliente, a abordagem de equipe, a integração entre projeto e construção através dos processos concorrentes, o desenvolvimento de relações estratégicas com fornecedores e a melhoria contínua através do benchmarking. Essas caraterísticas permitem a inclusão do conceito de geração de valor no gerenciamento do projeto, através da ênfase nos requisitos do cliente final, desde sua identificação até avaliações pós-ocupação. A integração entre projeto e construção, por sua vez, permite uma maior consideração dos condicionantes do canteiro de obras durante o processo de projeto, além de encaminhar à obra um projeto mais completo, mais detalhado e mais adequado ao sistema construtivo.

Cada disciplina de projeto tem um ciclo de atividades a serem desenvolvidas em um determinado tempo. Segundo OBrien e Smith (1995), a Engenharia Simultânea aproxima esses ciclos, fazendo com que os projetos das diferentes disciplinas sejam desenvolvidas em paralelo (ou de forma concorrente) para que o tempo de desenvolvimento do produto seja reduzido. Essa aproximação determina relações de dependência. O ponto no qual as disciplinas se tornam dependentes é quando são liberadas informações que direcionam o desenvolvimento dos demais conjuntos de atividades e, após esse ponto, qualquer nova definição afetará as etapas subsequentes. Nesse contexto, os mesmos autores utilizam a expressão maturidade de projeto para definir o momento quando o projeto está completo o suficiente para permitir a liberação de informações e detalhes para atividades posteriores. 

Cabe considerar que as implementações de Engenharia Simultânea têm sido realizadas de formas bastante distintas. Um dos principais problemas que surgem quando os projetistas tentam trabalhar paralelamente com outras equipes é que todas as mudanças de projeto resultam em mais análises e mudanças, o que pode levar a retrabalhos e demandas adicionais de comunicação. Além disso, o fato de somente uma única solução de projeto ser escolhida relativamente cedo no processo limita a gama de possibilidades a serem consideradas. Muitas vezes, nem mesmo é sabido se a solução escolhida é efetivamente a melhor (na sequencia de postagens também abordaremos o tema Set Based Design).

Abstraindo um pouco a teoria; como esta abordagem pode ser empregada na prática?

Em um hipotético projeto de uma edificação, temos os projetos arquitetônicos e complementares. Dentre os projetos complementares, provavelmente o que tem maior impacto no custo e na velocidade de uma obra é o projeto de supra estrutura

Suponhamos que nossa obra hipotética seja composta por uma supra estrutura em concreto armado. Tradicionalmente construtoras e incorporadoras terceirizam este serviço com escritórios específicos de cálculo estrutural. E mais tradicionalmente ainda, os responsáveis por estes projetos ofertam um prazo para execução e uma data final de entrega do pacote de informações (formas/geometria pilares, vigas e lajes; armaduras e detalhamentos, etc).

Em muitas destas ocasiões os projetistas de estruturas, após serem contratados, concentram-se no seu trabalho protegidos de tudo e de todos, para obterem tempo hábil para entregar o conjunto completo de informações de sua responsabilidade. Muitas vezes pressionados pelas construtoras e incorporadoras para entregar o trabalho em prazos curtíssimos, quase impraticáveis, para que as obras sejam iniciadas.

Quais são as consequências do formato tradicional de gerenciamento do projeto? 

Informações extremamente detalhadas em um momento inadequado do planejamento de um empreendimento, requerem análise minuciosa dos envolvidos no momento errado do processo; pressão sobre os projetistas podem afetar na qualidade do projeto; mudanças na execução, nos sistemas construtivos ou até mesmo informações da obra perdem valor se já obtivermos o projeto estrutural 100% executado, podendo demandar custos extras de projeto, aditivos, disputas entre empresas ou pior, a alteração do projeto na sua totalidade.

Como seria a solução na abordagem da Concurrent Engineering?

Digamos que, em nossa obra hipotética, o nosso prazo para a entrega do "jogo completo de pranchas do estrutural" (no modelo tradicional) seja de 90 dias; o prazo para o projeto de fundações profundas  seja de 30 dias; e a obra iniciará 15 dias após projeto de fundações. Neste modelo temos um prazo total de 135 dias para inicio do estaqueamento, a partir do inicio do desenvolvimento do projeto de supra estrutura.

Na abordagem de simultaneidade, poderíamos prorrogar o prazo de entrega do projeto de supra estrutura para 120 dias por exemplo, mas com entregas parciais de informação. Na primeira entrega, aos 45 dias, precisaríamos exclusivamente das cargas nas fundações, para liberar o inicio do projeto de fundações profundas. Na segunda entrega aos 90 dias poderíamos ter formas/geometria e na terceira entrega, aos 120 dias, armaduras e detalhamentos. 

Quais são as vantagens?

Na abordagem da Engenharia Simultânea em nossa obra hipotética teríamos as seguintes vantagens:

O estaqueamento na obra começaria no 90º dia, resultando na redução de prazo de 45 dias no processo. 

Quaisquer informações da obra - mudanças nos sistemas construtivos - podem ser administradas de maneira mais profícua quando temos o projeto sendo executado em paralelo com a execução.

O prazo de execução do projeto de supra estrutura torna-se viável para o responsável, evitando desgaste e aumentando a atenção sobre detalhes no processo. 

Maior integração de intervenientes do processo -  projetista estrutural, projetista de fundações, fornecedor de estaqueamento  e construtor mais próximos - ao invés de atividades isoladas de trabalho (modelo tradicional).

No entanto, em quase 20 anos de experiência em gerenciamento de projetos, execução de obras e implementação de ferramentas de gestão; em projetos das mais diversas complexidades e portes nos segmentos industrial, Óleo e Gás, Corporativo, Hospitalar e Residencial; raras foram as ocasiões em que o responsável pelo projeto estrutural ofereceu ou aceitou entregar os seus projetos em partes, ou até mesmo escutar as observações de construtores e incorporadores sobre práticas ou métodos construtivos. Porém ao longo dos últimos anos tenho orientado a contratação de projetos de maneira simultânea à obra, ou seja, informações menos detalhadas no inicio do processo e detalhamento progressivo destas através de um planejamento integrado entre obra e projeto.

As  figuras abaixo podem ilustrar a diferença entre a metodologia tradicional de gestão de projetos com a metodologia de simultaneidade.


Figura 1 - Abordagem tradicional

Na abordagem tradicional de desenvolvimento de projetos na construção é executado de forma sequencial com grandes lotes de troca de informação.

Figura 2 - Abordagem da Engenharia Simultânea 

Na abordagem da Engenharia Simultânea torna-se apropriado a redução do tamanho dos lotes de informação, pois os ambientes nos canteiros de obras são de muita incerteza e interdependência entre processos. Esta definição explicita a necessidade da existência de interação e maior troca de informações entre as disciplinas de projeto (ex. Projeto de arquitetura, projeto de estrutura, projeto de instalações) como forma de reduzir as perdas no processo de projeto e agregar valor ao produto final, ou seja à obra.

Neste contexto, é necessário salientar que o processo de projeto depende de uma intensa e contínua troca de informações entre os diversos intervenientes que desenvolvem, simultaneamente, suas opções e decisões de projeto e, portanto, o gerenciamento das interfaces estabelecidas exige um grande cuidado com o fluxo de informações. Em um cenário de alta complexidade, onde a interação e integração entre os agentes que participam de um empreendimento de uma edificação assumem um novo formato e importância, tem se destacado a função de coordenação do processo de projeto. Esta se mostra cada vez mais essencial para o sucesso e aumento da eficiência no desenvolvimento das atividades. Assim, a coordenação é uma função gerencial a ser desempenhada no processo de elaboração do projeto, com a finalidade de assegurar a qualidade do mesmo durante o processo. A coordenação de projetos visa garantir que as soluções adotadas tenham sido suficientemente abrangentes, integradas e detalhadas de modo que a execução  da obra ocorra de forma contínua, sem interrupções e improvisos. 

Destaco algumas atividades na  coordenação de projetos:

a) Garantir a eficaz comunicação entre os participantes do projeto através da definição de objetivos e parâmetros, propiciando a integração entre os participantes do empreendimento em suas várias fases;

b) Buscar soluções para as interferências entre as partes elaboradas por projetistas distintos;

c) Manter coerência entre o produto projetado e o processo de construção da obra, de acordo com as peculiaridades de cada empresa;

d) Gerenciar as decisões envolvidas no aumento da produtividade no canteiro, no controle e garantia da qualidade do projeto e obra, através da padronização de procedimentos, da integração entre projeto e execução, de definições de sistemáticas de avaliação e retroalimentação.

O coordenador de projetos deve ser o profissional responsável por realizar e provocar ações de simultaneidade nos processos, deve controlar a troca de informações entre os projetistas para que os projetos das diferentes especialidades sejam elaborados de forma organizada, nos prazos especificados e com o cumprimento dos objetivos definidos para cada um dos mesmos. 

Contudo, os profissionais responsáveis por esta função  em nossos canteiros  devem:

Possuir características de liderança, sabendo usá-las quando do surgimento de impasses em áreas de interesse de mais de uma especialidade do projeto;

Conseguir o comprometimento de todos os membros da equipe;

Ser profissional com vivência tanto no campo de projeto como da execução de obras, de forma que possa transmitir à equipe a orientação adequada que promova a necessária integração e paralelismo destas duas etapas;

Ter conhecimento de técnicas mercadológicas;

Conhecer as normas regulamentadoras e estatutárias;

Estar atualizado das inovações tecnológicas no ambiente da construção civil.

O que nos interessa a final?

Absorver as vantagens e benefícios da aplicação da Engenharia Simultânea, ou seja, melhor a qualidade da informação e evitar alterações substanciais  nos projetos, integrar profissionais  e suas atividades para que tenham os mesmos objetivos comuns,  reduzir os prazos de nossos projetos e empreendimentos, reduzir desperdícios em qualquer etapa do processo e aumentar o lucro de nossas operações.

Estamos dispostos?

Ao contrário do que muitos profissionais desejam -  projetos 100% concluídos antes do inicio de uma obra -  meu desejo é quebrarmos este paradigma. Não precisamos da totalidade das informações do projeto para começarmos uma obra, mas devemos ter total consciência disto e sabermos administrar a falta de informação ao longo do tempo.


Texto do Prof. Eng. Marcus Sterzi, MSc - Sócio Consultor pela LD Consulting - e professor do Instituto IDD. Colaborador do Projeto IDD Conteúdo, com produção de matérias para o blog do IDD News.

EXPANDA SEU CONHECIMENTO
RECOMENDADO PARA VOCÊ
Deixe seu comentário
  1. Nelson Sterzi 06 de setembro, 2016 - 10h53

    Abordagem atual e consistente do tema. Parabéns

    Deixe sua resposta
IDD NEWS
22 de março de 2017
Engenharia Civil
Por: Instituto IDD

Manual básico: Aprenda a usar gabiões

Eles são uma das soluções mais antigas para contenção do solo e dão uma aula quando o assunto é eficiência. Pode ser uma técnica anti(...)

20 de março de 2017
Engenharia Civil
Por: Instituto IDD

Por que ter uma certificação Black Belt?

Entenda o que uma certificação desta pode fazer por você no mundo empresarial! Ao procurar por uma especialização ou pós-graduação, o dif&ia(...)

15 de março de 2017
Engenharia Civil
Por: Instituto IDD

12 passos mágicos para planejar um projeto super eficiente!

Entenda o passo a passo de fazer um planejamento de qualidade para o crescimento da sua empresa. Você se planeja? A maioria dos profissionais sim, mas quando se fala em controlar o planejam(...)

13 de março de 2017
Engenharia Civil
Por: Instituto IDD

Projeto Crescer: novos investimentos e empregos em 2017

Conheça mais das oportunidades do Projeto do Programa de Parceria de Investimentos (PPI), que vem remodelar o modelo de concessões e mexer com a economia brasileira. No fim do ano p(...)

10 de março de 2017
Eventos e Oportunidades
Por: Instituto IDD

Cinco ótimos motivos para fazer uma pós-graduação (especialização) em 2017!

Coordenador de cinco cursos do IDD em parceria com a Lean Management Lab (LM Lab), Evandro Minato publicou seu novo artigo sobre “o porquê fazer umas pós-graduação hoj(...)

09 de março de 2017
Tecnologia e Inovação
Por: Instituto IDD

8 caraterísticas para alcançar a melhor qualidade do produto

Aprenda a impulsionar seus resultados com a qualidade dos seus produtos! Todo mundo sabe que a qualidade de um produto é um dos fatores mais importantes para o consumidor na hora de decidi(...)